Desinfetantes em spray estão por toda parte - em cozinhas, banheiros, escolas e hospitais - e a maioria de nós os usa no automático, sem pensar muito.
Só que uma pesquisa recente indica que a forma de aplicação pode ser mais importante do que parece. Em testes de laboratório, respirar produtos químicos comuns de limpeza provocou muito mais lesão pulmonar do que engolir as mesmas substâncias.
Os resultados não significam que as pessoas devam deixar de desinfetar, mas levantam dúvidas sobre uma lacuna relevante nas suposições de segurança - principalmente sobre o que ocorre depois que esses químicos são lançados no ar.
O que acontece depois de borrifar
Em experimentos com camundongos, a lesão apareceu com doses muito menores do que aquelas usadas em estudos baseados na ingestão.
Gino Cortopassi, da Universidade da Califórnia, Davis (UC Davis), relacionou o dano a ingredientes presentes em desinfetantes amplamente usados.
As concentrações no sangue chegaram a uma faixa geral semelhante à já registrada em humanos, conectando a exposição pulmonar a uma carga química que já foi detectada fora do laboratório.
Essa sobreposição não define o risco em pessoas, mas coloca a via de exposição como a pergunta central que o restante da discussão precisa responder.
Mais do que simples produtos para superfícies
Esses desinfetantes fazem parte de um grupo chamado compostos de amônio quaternário, ou QACs, muito comum em produtos de limpeza.
Sozinhos, eles não se tornam gás com facilidade. Porém, quando são borrifados, se fragmentam em gotículas minúsculas que podem ser inaladas e alcançar regiões profundas dos pulmões.
E os QACs não estão apenas em limpadores. Eles também aparecem em itens como herbicidas, sprays nasais, enxaguantes bucais, lenços para secadora e amaciantes de roupas - o que significa que a exposição pode ser mais frequente do que muita gente imagina.
Esse uso disseminado vem gerando preocupação. Um estudo encontrou QACs em 80 por cento das pessoas avaliadas, e níveis mais altos foram associados a menor produção de energia dentro das células.
Acompanhando a exposição pelo sangue
A nova pesquisa observou que os níveis desses químicos no sangue caíram rapidamente após a exposição. Isso sugere que eles se deslocam depressa - entram pelos pulmões e, em seguida, se distribuem pela corrente sanguínea.
Por causa disso, o momento da coleta é decisivo. Se o sangue for analisado tarde demais, a exposição pode parecer baixa, mesmo que tenha sido bem mais alta pouco depois da inalação.
Embora estudos com camundongos não permitam prever totalmente o risco em humanos, eles ajudam a esclarecer como produtos borrifados podem passar do ar para dentro do corpo.
Alguns sprays desinfetantes são mais nocivos
O estudo também identificou diferenças relevantes tanto entre substâncias quanto entre indivíduos.
Um ingrediente, o cloreto de didécil dimetilamônio, mostrou-se mais prejudicial do que o cloreto de benzalcônio quando os dois alcançaram os pulmões na mesma dose.
Ele provocou mais mortes em camundongos e resultou em maiores níveis de proteína e detritos no líquido pulmonar - sinais claros de dano mais intenso aos alvéolos. Células de defesa também chegaram mais rapidamente, e amostras de tecido coletadas depois indicaram mais inchaço e desorganização.
Essas diferenças indicam que produtos com rótulos parecidos podem não envolver os mesmos riscos. Os pesquisadores ainda observaram que camundongos machos tinham maior probabilidade de morrer do que fêmeas sob os mesmos níveis de exposição.
Os dados de sangue sugeriram uma explicação possível. As fêmeas parecem transferir o cloreto de benzalcônio dos pulmões para a corrente sanguínea com mais rapidez, o que pode diminuir o tempo em que o químico permanece no tecido pulmonar causando dano.
Mesmo assim, esse padrão não explicou totalmente os efeitos do segundo composto, o que indica que as diferenças por sexo ainda não são completamente compreendidas.
Como o dano pulmonar começa
Ao engolir esses compostos, uma parte considerável não chega a entrar no organismo, mas a inalação é outra história. Quando gotículas borrifadas atingem os pulmões, elas entram em contato direto com um tecido delicado, feito para troca gasosa rápida - o que torna os pulmões particularmente vulneráveis.
Os pesquisadores suspeitam que o processo envolva as mitocôndrias - estruturas celulares responsáveis pela produção de energia. Esses desinfetantes parecem interferir nesse sistema.
Quando as células ficam sem energia, têm mais dificuldade para manter barreiras de proteção. Isso pode permitir o vazamento de líquido e de células imunes para o tecido pulmonar, aumentando inflamação e lesão.
Embora esse mecanismo ainda não esteja totalmente confirmado em humanos, ele ajuda a entender por que a exposição por inalação se comporta de modo tão diferente da ingestão.
Dados do mundo real apontam na mesma direção. Em ambientes de saúde, a exposição a QACs foi associada a um aumento de 7.5 vezes em casos de asma diagnosticada por médico.
Outro estudo, com 73,262 enfermeiras dos Estados Unidos, concluiu que alta exposição a desinfetantes esteve associada à doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC).
Essas pesquisas não provam que o mesmo ocorra em residências, mas sugerem que inalações repetidas podem trazer riscos respiratórios reais.
Ainda há perguntas sem resposta
A exposição humana costuma ocorrer como repetições de baixo nível ao longo de meses ou anos, e não como uma dose aguda única aplicada em camundongos.
O tempo também pesa, porque os químicos diminuíram rapidamente no sangue dos camundongos e podem parecer em menor quantidade se a amostragem for tardia.
Além disso, os pesquisadores testaram apenas dois ingredientes, então outros membros dessa família química podem se comportar de forma diferente nos pulmões.
Essas lacunas impedem que o estudo feche a questão do risco em humanos, mas também delimitam quais experimentos passam a ser mais importantes daqui para frente.
O risco de limpadores no ar
A virada está nas gotículas suspensas: o mesmo desinfetante pode representar um risco muito diferente quando é borrifado, em vez de ser despejado ou aplicado com pano.
Essa distinção fica especialmente relevante em casas, escolas, hospitais e sistemas de transporte, onde a limpeza repetida pode manter essas gotículas circulando no ar interno compartilhado.
"Temos de questionar se realmente queremos todos esses sprays desinfetantes à base de QACs no ambiente", disse Cortopassi.
Os achados não defendem interromper a desinfecção, mas contestam a suposição antiga de que a exposição por inalação é pequena.
Em vez disso, a química da limpeza passa a parecer menos um tema apenas de superfície e mais um problema de exposição das vias aéreas, impulsionado por gotículas no ar.
Estudos futuros precisarão focar níveis crônicos de exposição que sejam relevantes para humanos. Ainda assim, esta pesquisa com camundongos já torna difícil ignorar os riscos ligados ao ato de borrifar.
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