O inseticida clorpirifós se consolidou como uma ferramenta potente para combater uma série de pragas, o que ajudou a torná-lo um dos pesticidas mais utilizados na segunda metade do século 20.
Como acontece com muitos pesticidas, porém, o clorpirifós não é um produto “cirúrgico”. Além de afetar insetos que não são o alvo - como abelhas -, ele também já foi associado a riscos de saúde para animais bem maiores, incluindo seres humanos.
Clorpirifós e a exposição pré-natal
Um novo estudo dos Estados Unidos indica que parte desses riscos pode começar ainda antes do nascimento. Pessoas expostas ao clorpirifós no período pré-natal têm maior probabilidade de apresentar alterações estruturais no cérebro e pior desempenho de funções motoras na infância e na adolescência.
Os autores observaram que, à medida que a exposição pré-natal ao clorpirifós aumentava, também cresciam, em etapas, os desvios na estrutura, na função e no metabolismo cerebral em crianças e adolescentes. Ao mesmo tempo, surgiam resultados mais fracos em medidas de velocidade motora e de programação motora.
"As alterações no tecido cerebral e no metabolismo que observamos com a exposição pré-natal a este único pesticida foram notavelmente disseminadas por todo o cérebro", afirma o primeiro autor Bradley Peterson, neurocientista do desenvolvimento da Escola de Medicina Keck da Universidade do Sul da Califórnia.
O que o estudo acrescenta às evidências sobre desenvolvimento cerebral
Segundo os pesquisadores, os dados reforçam trabalhos anteriores que já relacionavam o clorpirifós a prejuízos na função cognitiva e no desenvolvimento do cérebro. Ao mesmo tempo, eles destacam que, neste caso, os achados representam a primeira evidência de efeitos moleculares, celulares e metabólicos amplos e duradouros no cérebro.
Como a pesquisa foi feita em Nova York (1998–2015)
A equipe examinou informações reunidas de famílias da cidade de Nova York entre 1998 e 2015, dentro de uma coorte de gravidez de longo prazo criada pelo Centro de Saúde Ambiental Infantil da Universidade Columbia. A coorte original era formada por mães afro-americanas e dominicanas, com idades entre 18 e 35 anos.
Durante a gestação, as mães responderam a questionários e, em alguns casos, forneceram informações adicionais - incluindo níveis de clorpirifós das crianças ao nascer, obtidos por amostras de sangue do cordão umbilical ou de plasma materno.
Anos depois, os pesquisadores coletaram exames de ressonância magnética (RM) e dados comportamentais das crianças quando elas tinham entre 6 e 14 anos. Ao final, o estudo contou com 270 participantes que tinham níveis de clorpirifós medidos ao nascimento e exames de RM utilizáveis feitos quando eram crianças ou adolescentes.
Resultados: alterações cerebrais e pior desempenho motor
A análise identificou uma relação significativa entre os níveis pré-natais de clorpirifós e anormalidades cerebrais em crianças, sugerindo que "a exposição pré-natal pode produzir alterações persistentes na estrutura, na função e no metabolismo cerebral em proporção direta ao nível de exposição", como escrevem os autores.
Nesse grupo urbano, é provável que a exposição ao clorpirifós tenha ocorrido dentro de casa, já que muitas crianças nasceram antes ou pouco depois de a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) proibir o uso residencial do clorpirifós, em 2001.
Restrições semelhantes foram adotadas posteriormente em outros países, mas o pesticida continua sendo aplicado na agricultura em diversas regiões do mundo.
"As exposições atualmente difundidas, em níveis comparáveis aos vivenciados nesta amostra, continuam colocando trabalhadores rurais, gestantes e crianças ainda não nascidas em situação de risco", afirma a autora sênior Virginia Rauh, cientista de saúde ambiental da Escola de Saúde Pública Mailman da Universidade Columbia.
"É vital que continuemos a monitorar os níveis de exposição em populações potencialmente vulneráveis, especialmente em gestantes de comunidades agrícolas, já que seus bebês continuam sob risco", diz Rauh.
Limitações e necessidade de mais pesquisas
Os pesquisadores apontam algumas limitações: por se tratar de um estudo observacional, ele consegue apenas indicar associações, e não comprovar causa e efeito.
O trabalho também se restringiu à exposição pré-natal ao clorpirifós - sem medir nem controlar a exposição após o nascimento - e não avaliou a exposição a outros inseticidas que frequentemente aparecem junto com o clorpirifós. Além disso, a baixa diversidade demográfica da amostra pode reduzir o quanto os resultados se aplicam a outras populações.
Ainda assim, dada a presença disseminada do clorpirifós e de compostos semelhantes no ambiente, o estudo sinaliza a necessidade de aprofundar as investigações sobre esses pesticidas de alta potência.
"Outros pesticidas organofosforados provavelmente produzem efeitos semelhantes", afirma Peterson, "o que justifica cautela para minimizar exposições durante a gravidez, a infância e o início da infância, quando o desenvolvimento cerebral é rápido e especialmente vulnerável a esses produtos químicos tóxicos".
O estudo foi publicado na revista JAMA Neurology.
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